Autor: Darci Garçon
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Vamos aproveitar este início de ano para refletir um pouco sobre o futuro ?

A palavra ócio, mesmo que acompanhada por algum adjetivo   complementar, efetivamente não me soa bem. É difícil afastar dela o sentido de desocupação, inação e indolência, ainda que  filósofos  tenham descoberto o seu lado positivo, transformando-o em  assunto para  livros, palestras e artigos.

Vamos deixar de lado o descanso merecido de quem trabalhou durante 12 meses seguidos, ou mais, tendo como sobrepeso o esforço para demonstrar competência e manter  o emprego. Sim, essa pessoa faz jus a um mês de descanso remunerado para repor energias, passear, distrair-se, conviver com a família. Mas não deixo de ressalvar que, mesmo nestes casos, eu  não recomendaria o ócio absoluto. Ócio absoluto seria, por exemplo, curtir o dia na praia, jogar “prosa fora” o tempo todo, tomar chopinho, comer e dormir tranquilamente todos os dias, durante esse período, esquecendo-se de que muitas coisas estão acontecendo e transformando o mundo, uma delas  a previsão de que muitos empregos serão extintos.

Dê uma olhada no quadro abaixo e veja onde você se encaixa:

  1. até os 35 anos de idade, as pessoas preocupam-se com necessidades básicas, casar, ter filhos, comprar casa, etc.;
  2. dos 35 aos 45 anos preocupam-se em garantir poupança para o futuro;
  3. dos 45 aos 55 anos buscam independência financeira;
  4. acima dos 55 anos, mudam-se as prioridades para busca de alguma ocupação rentável  ou foco na aposentadoria. E, no mercado de trabalho,  entra em cena o famigerado preconceito contra os “idosos”.

Enquanto com vida saudável, penso que não deveria haver  sobra de tempo  para ócio, não importando o adjetivo que o complemente  a não ser que  exista algo como  “ócio produtivo”.  Para mim, ócio produtivo significa que a pessoa estará de férias  mas realizará algo a seu favor, que contribuirá para o passo seguinte, de acordo com os seus planos de futuro. Por exemplo, atualizar-se com o que acontece mundo afora.

Num país  em que a  educação, a assistência médica pública e a aposentadoria são precárias, não há condições para qualquer cidadão dar-se ao luxo de perder algum tempo de sua vida não fazendo nada, apenas meditando ou contemplando a natureza. Por volta dos 50 anos de idade, verá que é difícil arrumar   emprego e que há riscos de sucesso num empreendimento pessoal com o objetivo de buscar  rendimento que lhe garanta  conforto e bem estar.  Verá também que não é viável  curtir  a vida somente com  rendimentos acumulados durante os anos.  Assim, um aposentado que não se organizou financeiramente, poderá   tornar-se  dependente de terceiros e se  sujeitará à utilização daqueles  serviços assistenciais colocados à sua disposição pelos nossos governantes.

O que seria, então, o que chamo de “ócio produtivo”? Isto significa que a pessoa deverá arrumar  trabalho quando estiver de férias?  Que não poderá relaxar depois de anos de “malho” sob estresse permanente na empresa, de enfrentar o trânsito horroroso e outras inconveniências do dia a dia?  Não chego a tanto, mas não estou tão longe disso.

O caro leitor conhece a expressão “pé de meia”. Acredito que é  pequeno o percentual de  privilegiados que acumulam dinheiro para que, além de curtir o ócio, possam  dar-se a luxos depois dos 55 anos. Com certeza,  uma das  condições mais traumatizantes pelas quais a pessoa pode passar é não ter uma fonte regular de renda que lhe permita viver com o mínimo de dignidade.

Tenho conhecidos que eram  bem assalariados no mundo corporativo e que enfrentam esse trauma, mesmo não tendo sido perdulários.  E há, também, os que nunca se preocuparam com o “pé-de-meia”. Os que aproveitaram a vida da melhor forma possível, ostentando e esbanjando, e agora  são dependentes e sofrem por  isso. Nestes casos, a depressão certamente pegará pesado.

Então, para o que quero chamar a atenção?  Para o simples  fato de que o ócio contemplativo não deve ser constante nem permanente. E também para o fato de que, desde os 45 anos de idade, ou mesmo antes, as pessoas  devem se preocupar com os  anos seguintes e estar organizadas para cada uma das  mudanças daquela escala.  Sem se esquecer  de que outros acontecimentos podem se precipitar, como desemprego ou problemas de saúde,  e as condições ficarem fora de controle antes do que se esperava.

Assim, diante desse quadro, insisto que, a partir dos 45 anos de idade, passe já a pensar   em alguma alternativa de atividade que permita sobreviver sem emprego e que produza renda  na mudança. Mas, que fazer, então?  A resposta é: cada caso é um caso. Depende do que você fez na vida, de suas experiências, de suas habilidades, do que você gosta de fazer e  do que o motiva. O mais adequado, obviamente, é  explorar as suas melhores  competências e avaliar como elas poderão ser úteis no desenvolvimento de uma nova carreira como empregado, como consultor, como empreendedor, como investidor etc.

Obs. Neste artigo não  estou considerando um outro inconveniente terrível do tempo ocioso:  falta de sentido ou de propósito. A respeito deste assunto, leia neste site O vazio existencial e a ociosidade.

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